Saúde e espiritualidade na formação profissional em saúde, um diálogo necessário

Raquel Aparecida de Oliveira
2017 Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba  
A cura e a prevenção de doenças sempre estiveram ligadas a práticas religiosas, mas com o advento da medicina científica, esses aspectos foram desvinculados. Dessa forma, os profissionais de saúde passaram a ser formados pelo paradigma científico da modernidade, que determinou uma separação entre corpo e mente e entre ser humano e natureza. A religião, no entanto, não desapareceu. No século XXI, ela continua presente na vida das pessoas. Segundo pesquisa realizada pela Gallup, 79% da população
more » ... , 79% da população brasileira se consideram religiosos. 1 Koenig verificou que 90% dos pacientes dizem que crenças religiosas e suas práticas são importantes maneiras pelas quais eles podem enfrentar e aceitar melhor as doenças físicas, e mais de 40% indicam que a religião é o fator mais importante que os ajuda nessas horas. 2 Assim, observa-se significativa influência da espiritualidade no processo saúde-doença. A dimensão da espiritualidade como tema de estudo vem recebendo atenção significativa em contextos de saúde e qualidade de vida, sobretudo nos Estados Unidos, nos campos da psicologia da religião, medicina e enfermagem. Também na Europa, o interesse em tais estudos tem sido crescente. No Brasil, as investigações sobre esse tema vêm sendo desenvolvidas nas áreas da medicina e da enfermagem e confirmam a íntima relação entre espiritualidade e resultados em saúde. As crenças religiosas e espirituais têm se demonstrado um recurso auxiliar no enfrentamento de eventos estressores, como o processo saúde-doença, e no tratamento da doença. Dessa forma, a espiritualidade é imprescindível na formação dos profissionais de saúde. Para a Association of American Medical Colleges (AAMC): Espiritualidade é reconhecida como um fator que contribui para a saúde de muitas pessoas. O conceito de espiritualidade é encontrado em todas as culturas e sociedades. Ela é expressa nas buscas individuais para um sentido último através da participação na religião e ou crença em Deus, família, naturalismo, racionalismo, humanismo, e nas artes. Todos esses fatores podem influenciar na maneira como os pacientes e os cuidadores profissionais da saúde percebem a saúde e a doença e como eles interagem uns com os outros. 3 (tradução da autora) De acordo com a AAMC, 3 os currículos médicos devem ser capazes de orientar os alunos quanto ao papel da espiritualidade no cuidado dos pacientes em diferentes situações e a influência de sua própria espiritualidade na capacidade de prestar cuidado singular que envolva os aspectos espirituais da vida dos pacientes. Poucas instituições contam com cursos exclusivamente dedicados à espiritualidade e saúde no Brasil. Pesquisa sobre o ensino desse tema em escolas médicas no país, publicada em 2012, revelou que das 86 (47,7%) instituições que participaram, 9 ofereciam um curso específico sobre o assunto, sendo 4 (4,6%) obrigatórios e 5 (5,8%) eletivos. Em adição, 14 (16,2%) relataram que uma aula expositiva sobre espiritualidade e saúde constava em algum momento no currículo. Outras 12 (13,9%) indicaram que um membro da faculdade colaborava em um curso ou aula introduzindo o tema, principalmente nas disciplinas de Ética, Psicologia médica e Medicina comunitária. Somente 2 (2,3%) indicaram estar planejando implementar um novo curso em seu currículo. 4 Estudo multicêntrico realizado com 3.600 estudantes de escolas médicas brasileiras concluiu que existe uma lacuna entre as atitudes e expectativas dos estudantes sobre a inclusão da espiritualidade e religiosidade no seu treinamento e na prática clínica. Muitos estudantes brasileiros sentem que os pacientes devem ter as suas crenças consideradas e que elas podem impactar de forma importante nos resultados médicos e na relação médico-paciente. 5 Pesquisa realizada com 120 (81,2%) estudantes do curso de enfermagem de uma universidade estadual do interior de São Paulo concluiu que a abordagem da espiritualidade dos pacientes exercia influência na prática clínica. Apesar de a maioria já ter perguntado sobre a religião ou espiritualidade dos doentes, poucos se sentiam adequadamente preparados e não tiveram treinamento sobre o assunto. 6 1
doi:10.23925/1984-4840.2017v19i2a1 fatcat:odfh7fk2bbealboptndvhllf4q