Guillermo: uma nota pessoal

Adam Przeworski, Toledo Jr. Joaquim
2012 Novos Estudos CEBRAP  
NOVOS ESTUDOS 92 ❙❙ MARÇO 2012 5 Muitos anos atrás, em meados dos anos 1980, Guillermo e eu ministramos juntos um seminário sobre democracia que alternava, a cada duas semanas, entre Notre Dame e a Universidade de Chicago. Discutíamos muito, acompanhados pelas intervenções animadas dos estudantes, e eu vencia a maioria das discussões. Mas quase invariavelmente eu saía da sala de aula convencido de que ele estava certo. Guillermo possuía uma habilidade irreal de enxergar grandes fenômenos
more » ... es fenômenos escondidos no horizonte da história. Ele simplesmente tinha a intuição, o olfato, de dar sentido aos perigos iminentes. Mas era também capaz de ver as pequenas brechas que podiam criar aberturas para a ação. Ele era dotado de um senso profundo da tragédia da história -Guillermo não era um otimista -, mas também de uma determinação implacável de seguir lutando, mesmo nas situações mais desesperadas. Foi ele quem nos fez entender a barbárie iminente da nova forma de ditadura na Argentina. Com Phillipe Schmitter, foi ele quem nos levou a conceber as estratégias para livrar o mundo do autoritarismo 1 . Jamais foi seduzido pelas celebrações da democracia: Guiller mo via o fim das ditaduras apenas como uma chance para lutarmos pela realização de nossos ideais, e via muitos problemas nas novas democracias. Era exemplo do postulado de Gramsci: "pessimismo do intelecto, otimismo da vontade". Guillermo era um líder. Seu impacto pessoal e intelectual era enorme. Estudantes coreanos escreviam teses sobre o "autoritarismo burocrático" em seu país, acadêmicos russos discutiam "democracia delegativa", e "accountability horizontal" se tornou a linguagem na qual intelectuais pensavam a separação dos poderes. O projeto Woodrow Wilson sobre transição de regimes, que ele coorganizou e codirigiu definiu a agenda de mais de uma geração de pesquisadores no mundo todo. Conheci Guillermo em 1975, e logo nos tornamos amigos. O que talvez tenha mantido para a amizade seguir viva é que amiúde discordávamos. Com frequência eu pensava que o que ele considerava deficiências especificamente latino-americanas eram apenas problemas genéricos da democracia, e que sua visão da América Latina era injustificadamente pessimista. Ele dizia que eu confundia aparência [1] Confira, nesta edição, o artigo "Diálogos com Guillermo O'Donnell", de Fábio Wanderley Reis.
doi:10.1590/s0101-33002012000100001 fatcat:pzmca3nevrbpvnpjy7ybhmfwhu