EDUCAÇÃO E NOVAS PRÁTICAS

Jose Manuel, Pérez Tornero, Por_José Geraldo De Oliveira, Edição _Carlos Costa
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Manuel Pérez Tornero é doutor honoris causa da Universidade de Aix-Marsella (hoje Université de la Mediterranée). Realiza pesquisas sobre comunicação, educação, televisão cultural e educativa, alfabetização mediática e discurso jornalístico -com atenção especial às conexões entre comunicação, educação, cidadania e políticas públicas. Sua experiência como diretor de programas de televisão e como jornalista o levou a ser consultor da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a
more » ... Educação, a Ciência e a Cultura) e da União Europeia em temas de serviço público de televisão e de alfabetização digital e midiática. Homem simpático e de sorriso farto, durante a conversa se aprofundou nesses temas a que se dedica: educação, sociedade da informação, educomunicação e ensino de jornalismo. Sobre ensino de jornalismo é enfático: "As escolas precisam entender que o jornalismo há tempos se adaptou às formas comunicativas digitais" -e as grades dos cursos devem ser pensadas para a educação massiva, que mudou radicalmente. Mas é preciso "respeitar a tradição das escolas, o sentido da escrita, lembrando que as tecnologias da comunicação são complementares e ajudam a enriquecer a vida escolar", com os estudantes exercitando a linguagem audiovisual, que -como qualquer outra linguagem -necessita do aprendizado de uma gramática. Diretor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação e mentor do grupo de pesquisadores do Gabinete de Comunicação e Educação da UAB, recebeu o repórter da Revista Parágrafo em seu gabinete para uma conversa sobre suas pesquisas e suas percepções sobre o ensino frente as evoluções da sociedade da informação. PARÁGRAFO: Comecemos com a pergunta básica: que é Educomunicação? JOSÉ MANUEL PÉREZ TORNERO É uma relação dupla: a comunicação e a relação que ela mantém com a educação. Por um lado, os meios de comunicação, querendo ou não, educam; de outro, a educação não existe sem um "carisma", educar é atividade de comunicação. Do ponto de vista dos conceitos, pode-se dizer que tanto os professores midiáticos ou os educadores podem ser analisados a partir de um paradigma comum. Outra ideia mais prática e proativa: para enriquecer a educação é necessário trabalhar a partir do ponto de vista da comunicação, aplicando tecnologias da informação. Para que a comunicação midiática seja efetiva, temos de pensar em suas consequências educativas. Isso é o que define a educomunicação. A consequência é a "educação midiática", que potencializa a melhoria das competências comunicativas das pessoas e dos grupos, ao mesmo tempo em que se apropria dos meios de comunicação na busca da autonomia individual e coletiva -e da participação democrática. Qual o termo correto, "alfabetização midiática" ou "alfabetização digital"? Há a comunicação que não é digital, como a comunicação oral ou gestual, que pode ou não acontecer no ambiente digital. Mas, por outro lado, toda a comunicação midiática tradicional, como a impressa, está sendo transformada pelo digital. Se adotarmos o termo "alfabetização midiática", temos uma expressão mais ampla, pois todos os processos de comunicação pessoal são mediados hoje por tecnologias. A Unesco propõe unir informação, mídia e educação para incluir os professores no ambiente midiático. Mas são visões sobre um mesmo fenômeno: a comunicação humana e o uso de tecnologias. Em "Nuevo paradigma de la comunicación en la educación. Cómo transformar los valores en la innovación" 1 , o senhor afirma que há uma mudança no "paradigma educativo" que impõe uma abordagem "a partir de uma perspectiva holística", ou seja, que todos os atores participem da educação. Discorra sobre isso. É preciso situar este paradigma no passar do tempo. A escola, como instituição, é uma destilação ocorrida ao longo de muitos séculos -vem lá dos sumérios, passa pelos gregos, por Roma, pela Escolástica medieval, até chegar 1 [https://jmtornero.files.wordpress. com/2015/06/1-el-nuevo-paradigma-de-la--comunicacic3b3n-en-la-educacic3b3nc2a0. pdf] ao século XIX. É um processo de "institucionalização" do ponto de vista regulatório (ética e deveres da escola) e ao mesmo tempo de "especialização", do ponto de vista social. Isso significa que, ao longo do tempo, buscou-se marcar limites, fronteiras, espaços próprios da educação, que hoje conhecemos como escolas, universidades. Foi um processo sadio, do ponto de vista da especialização e da eficiência, mas se tornou insano hoje quando isola o professor de outros contextos educacionais, como afastar o aprendizado das ruas, das relações familiares. Isso leva ao risco de que os professores distanciem do processo de aprendizagem aquilo que acorre na vida cotidiana. Temos de resgatar uma visão integradora: vivemos em sociedade e se a aprendizagem não for inserida nela não seremos nada. Reconhecer que o aprendizado hoje leva a uma ecologia plural, variada e que ele não acontece apenas no espaço da escola. Ele acontece na comunicação, na mídia, na família, nas ruas. Essa mudança de paradigma pressupõe que as escolas assumam como princípio fundamental a possibilidade de aprender em qualquer lugar e a qualquer momento. O trabalho da escola é o de organizar, ser o elemento catalisador para acelerar o processo de criação de saberes que acontece na vida cotidiana. Ter isso como diretriz cria uma osmose entre a escola e seu "A grande mudança que acontece na educação é que a aula conta cada vez menos do que o entorno, afirma José Manuel Pérez Tornero. Hoje a TV é um fenômeno transmidiático que não usa apenas o aparelho, mas a internet. Não é uma mensagem audiovisual de ida, mas de ida e de volta. Esta é a grande virada."
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