O TRABALHO É COMO UM BURACO NEGRO: VOCÊ FICA OLHANDO PARA ELE, A PONTO DE NÃO MAIS TER ESPAÇO A SUA VOLTA

Nelson Felix, Elisa Prado, Ivair De Magalhães, Ronald Reinaldim, Duarte, Wilton Montenegro
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no ateliê do artista, em Muri, município de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 5 de agosto de 2017. Ivair Reinaldim Gostaríamos de agradecer sua disponibilidade para esta entrevista. Fiquei refletindo sobre como iniciá-la e levei em conta duas possibilidades: por um lado, o passado; por outro, o presente. Escolhi a segunda opção, justamente porque está nos recebendo em Muri. Desde o início pensamos que seria importante fazer essa conversa aqui, não apenas porque é seu espaço de criação, mas
more » ... e é o lugar que escolheu para viver. Então, começamos com essa sua escolha. Nelson Felix Em primeiro lugar, obrigado por terem vindo. Já são muitos anos aqui, deve fazer uns 34, 35 anos que vivo neste lugar. Morei aqui com família, criamos os filhos e depois segui sozinho. Vim para cá mais novo, no momento em que despertei ativamente para uma vida espiritual. Fui um mili-tante, um pacifista; fiz parte informalmente do Greenpeace e de outras comunidades que se iniciavam no Brasil. Isso entrou forte na minha vida, assim como a ideia de me entregar por inteiro à arte, e as duas coisas ganharam força ao mesmo tempo e me deram certeza do que fazer no mato. De certo modo, quando relativamente novos, temos algumas noções de determinadas coisas sem muita profundidade; não temos como somar a vida ainda. Você lê sobre, se identifica e absorve teoricamente. Porém, há uma distância entre esse absorver teórico e passar à prática ativa daquilo. No fundo, acho que sou um espiritual prático. Logicamente, havia uma dicotomia entre essas duas situações: uma me levava para fora, outra me levava para dentro. Achei que se saísse do Rio e fosse para um lugar onde tivesse o controle do tempo, da minha relação com o ritmo do tempo, poderia unir as coisas. Foi o que fiz, vim para cá, mais ou menos com a ideia de tentar transformar esses dois pensamentos em uma coisa só. Quanto à arte, tinha certeza de que poderia trabalhar em qualquer lugar. Mas depois de uns 30 e tantos anos morando aqui, acoplei essa certeza a outra: ter vivido aqui foi fundamental para o que fiz e faço. Sei que posso trabalhar em qualquer lugar, mas existe algo aqui, da ordem do tempo "contínuo" e solitário, que gerou uma particular densidade.
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