Economia brasileira: desempenho em 2006 e entraves ao seu crescimento*

Martinho Lazzari, Economista Da Fee
2007 unpublished
Caso se confirme a previsão do Instituto de Pes-quisa Econômica Aplicada (IPEA), feita em dezembro (Bol. Conj., 2006b), de que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve aumentar 2,8% em 2006, este será o dé-cimo primeiro ano consecutivo em que a economia bra-sileira crescerá abaixo da média mundial. Especificamen-te em 2006, o PIB mundial deverá crescer, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI, 2007), 5,1%. Se a economia mundial vai bem e a brasileira não, deve-se analisar o
more » ... alisar o comportamento dos condicionantes internos, na tentativa de entender melhor esse mau desempenho. A política econômica atual, baseada no tripé formado por metas de inflação, câmbio flexível e valorizado e superávit primário, vigora, grosso modo, desde 1999. Desde então, a taxa média de crescimento do PIB é de 2,3% ao ano. Na tentativa de elucidar alguns pontos relaciona-dos ao desempenho da economia brasileira, o presente texto está dividido em duas partes. Na primeira, faz-se uma análise do desempenho da economia brasileira ao longo de 2006, centrada na evolução do PIB e de seus componentes. Na segunda, trata-se dos entraves que a política econômica vigente impõe ao aumento da taxa de investimento e, conseqüentemente, a um crescimen-to mais vigoroso e sustentável do PIB. 2 Desempenho da economia brasileira em 2006 Impulsionado pela expansão do crédito e pelo forte aumento dos gastos públicos, o PIB do primeiro trimes-tre de 2006, segundo a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2007), 1 teve aumento de 1,2% contra o quarto trimestre do ano anterior, com ajuste sazonal (Tabela 1). Essa taxa de crescimento trouxe ânimo às expectativas, fazendo com que o IPEA, por exemplo, previsse uma taxa de crescimento anual de 3,8% em seu Boletim de Conjuntura de junho de 2006, entendendo que esse avanço estava relacionado à "per-sistência na adoção de políticas econômicas responsá-veis". Já o Banco Central encarava o dado como ratificador da "percepção de recuperação do ritmo de cres-cimento da economia" (Relatório..., 2006). Mas, no se-gundo trimestre, a economia desacelerou, crescendo apenas 0,4%, já sentindo os efeitos da taxa de câmbio valorizada, que impulsionou as importações e impediu a manutenção do crescimento industrial que vinha ocor-rendo a dois trimestres seguidos. Mesmo assim, espe-rava-se a recuperação da economia já para o terceiro trimestre, o que fez com que o IPEA (Bol. Conj., 2006a) revisse sua projeção para 3,3% para o ano. Mas a recu-peração não veio, e, com a divulgação dos dados do PIB do terceiro trimestre, em que o crescimento, frente ao trimestre anterior, ficou em apenas 0,5%, caíram por ter-ra as projeções de um crescimento anual acima de 3,0%. O IPEA reviu mais uma vez suas projeções, agora es-perando uma taxa anual de 2,8%, enquadrando os da-dos "[...] num padrão cíclico que vem se repetindo há algum tempo em torno de uma taxa média de cresci-mento baixa", conforme seu Boletim de Conjuntura de dezembro de 2006. Comparando o acumulado dos três primeiros trimes-tres de 2006 contra o de igual período de 2005, constata-se que a taxa de crescimento do PIB ficou em 2,5%. Quando se leva em conta a taxa acumulada nos últimos quatro trimestres, observa-se que ela é de 2,3%, núme-ros que bem retratam uma economia que não consegue crescer de forma mais vigorosa e sustentada. Para ten-tar entender melhor o desempenho do PIB em 2006, a 1 Todos os dados referentes aos componentes do PIB têm como fonte o IBGE. Quando existir outra fonte, essa será explicitada.
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