Ontologia social e emergência na obra do último Lukács

Maurício Vieira Martins
2013 Scientiae Studia  
O recente lançamento da tradução brasileira do primeiro volume da derradeira obra do filósofo húngaro György Lukács, Para uma ontologia do ser social I, 1 permite que um público mais amplo tenha acesso ao texto que é considerado uma espécie de testamento filosófico do autor. Apesar de escrita durante o final de sua vida, Lukács concebia sua Ontologia como um novo recomeço. Segundo o relato de Nicolas Tertulian, Lukács dizia em tom autoirônico que "é privilégio de alguns gênios da filosofia,
more » ... Aristóteles ou Marx, esclarecer muito precocemente, aos vinte anos, o essencial de seu pensamento inovador; para os outros, para o comum dos mortais, pode acontecer (...) que somente aos 80 anos consigam clarear o núcleo de sua filosofia" (Tertulian, 1986, p. 52). Por mais desconcertante que essa declaração possa parecer, vale lembrar que a Ontologia lukacsiana foi concebida não só como o resgate de uma perspectiva filosófica, mas também como um esforço para o renascimento do marxismo, empobrecido por décadas de interpretações simplificadoras, que encontraram no stalinismo sua face mais brutal. Mas em que sentido deve ser entendida, afinal, a ontologia proposta por Lukács? Se é verdade que cada filósofo imprime um sentido próprio às categorias herdadas da tradição filosófica, também Lukács não foge a essa regra. Em resumo de um longo trajeto, diríamos que, na pena do filósofo húngaro, uma ontologia se define pelo esforço em afirmar o ser como mundo, distinto, num primeiro momento, do sujeito que sobre ele se debruça, e que por isso demanda um saber que o formule em suas características
doi:10.1590/s1678-31662013000300011 fatcat:x2gejfa7abgddd2udr6g5626tq