Vernant, Jean-Pierre. Entre mito e política

Fernanda Peixoto
2002 Revista de Antropologia  
Perfil de Vernant e outros perfis Impossível resumir as quinhentas páginas que compõem Entre mito e política do célebre helenista francês Jean-Pierre Vernant (1914-), não apenas em função da espessura do volume, mas sobretudo porque se trata do esboço detalhado de um perfil, do rastreamento minucioso de um itinerário pessoal, afetivo, político, intelectual e científico. "Percurso" era o título pensado para o livro, diz Vernant no "Prefácio" à edição, na medida em que ele reúne fragmentos, "um
more » ... uco como uma vida: um amontoado feito de peças e pedaços". Entrevistas, conferências, resenhas, ensaios, artigos jornalísticos, prefácios, textos antigos e recentes, publicados ou inéditos. Por meio deles passamos em revista a obra do autor, suas idéias centrais, seus desafios teóricos, assim como as inúmeras atividades políticas do intelectual, engajado desde a juventude em movimentos antifacistas. Nesse sentido, o livro tem ar de balanço, funcionando como uma bela introdução para os que ainda não tiveram o privilégio de entrar em contato com a produção de Vernant. "Tecer a amizade", título do ensaio de abertura, fornece a chave de leitura dos textos. As etapas do percurso traçadas têm nas relações de amizade o seu fio condutor: os mestres, os alunos, os colegas de pesquisa, os companheiros políticos, os interlocutores. É pelos olhos dos amigos, cujos retratos se sucedem em diversos ensaios, que a figura de Vernant se constrói, perfeitamente de acordo com o modo grego de ser "sob os olhos dos outros". Como nos ensina ele, "para o grego o indivíduo não é separado do que realizou, efetuou, nem do que o prolonga: suas obras, as façanhas que executou, sua família, seus parentes, seus amigos. O homem está no que faz e no que o liga aos outros" (: 343).
doi:10.1590/s0034-77012002000100008 fatcat:okkhrwxgarcahfu2vtwo7vspya