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Para uma leitura do espaço em João César Monteiro

Pedro Camacho Costa
2020 Rebeca: Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual  
Resumo Nos filmes de João César Monteiro, é estabelecida uma nítida oposição entre espaço urbano e não-urbano, ou, como propomos, entre um espaço repressivo e um espaço mítico. Analisando os seus filmes, e tendo em conta as várias dimensões que a noção de sagrado tem no universo do cineasta, mostraremos como se realiza essa oposição e qual o seu peso para uma leitura de conjunto da obra. O texto divide-se em cinco partes: 1) uma breve introdução ao tema; 2) uma exposição sobre o que entendemos
more » ... e o que entendemos por espaço mítico, recorrendo ao conceito de mito em Mircea Eliade; 3) um esclarecimento sobre o espaço repressivo, tendo em conta a noção de transgressão em Georges Bataille e de impuro em Roger Caillois, bem como a ideia de dispositivo de poder em Michel Foucault; 4) uma secção mais longa em que discorremos sobre a noção de criação-resistência, e em que mostramos que Monteiro faz do seu alter-ego, João de Deus, o criador absoluto do universo-cinema, resistindo a mecanismos repressivos, como o panóptico; 5) breves considerações finais em que nos interrogamos sobre a possibilidade de regressar ao espaço do mito. Palavras-chave: João César Monteiro; Espaço mítico; Espaço repressivo; Criação. Abstract In João César Monteiro's films, a clear opposition between urban and non-urban space, or, as we propose, between a repressive and a mythical space, is established. Analyzing his films, and taking into account the plural dimensions that the notion of sacred has in the filmmaker's universe, we will show how this opposition is realized and how much it weighs on an overall reading of his work. The text is divided into five parts: 1) a brief introduction to the theme; 2) an exposition of what we mean by mythical space, exploring the concept of myth in Mircea Eliade; 3) an explanation of repressive space, taking into account the notion of transgression in Georges Bataille and of impure in Roger Caillois, as well as the idea of power device in Michel Foucault; 4) a longer section in which we discuss the notion of creationresistance, in which we show that Monteiro transforms his alter ego, João de Deus, into the absolute creator of the cinema-universe, resisting repressive mechanisms like the panopticon; 5) brief final considerations in which we consider the possibility of returning to the space of myth. 157 1. Introdução No conjunto dos seus filmes, João César Monteiro traça uma clara oposição entre espaço urbano e não-urbano. De um lado encontram-se os filmes da cidade decadente, do espaço repressivo, da velha Lisboa habitada por figuras autoritárias, mas também por alcoólicos, loucos, prostitutas e marginais; do outro, aqueles que nos transportam, por exemplo, ao mundo rural profundo de Trás-os-Montes, ou ao espaço luminoso das praias do Verão algarvio, espaços míticos em que o homem se liga à terra, às forças telúricas ou aquáticas, e às divindades. Portanto, de um lado há o mundo moderno (ou pós-moderno) da urbe dominada por dispositivos disciplinares, e percorrida por figuras da vigilância e da contra-ordem (sem dúvida, produto de exclusão, mas também figuras de dissidência ou resistência); do outro, há um mundo mítico já quase desaparecido, um mundo que é urgente reencontrar, mas que nos é negado. Ou como refere Monteiro: "há coisas a que já não se pode regressar. A certos mundos, ao mundo dos anões, por exemplo. Que é o mundo da infância, o mundo da fábula" (2005a: 457). Acrescentamos: o mundo do mito. Já que o mito, tal como o amor e o cinema, pertence, segundo o realizador "a um mundo em vias de extinção, um mundo que é aniquilado pelo progresso" (2005g: 379). Monteiro coloca o cinema numa permanente relação com o sagrado. E a oposição entre os dois espaços a que nos referimos pode ser entendida a partir das várias definições que a noção de sagrado adquire no universo cinematográfico do realizador. Essa oposição não se estabelece entre espaço sagrado e espaço profano, mas entre: i) um espaço mítico: um espaço impoluto, em que o sagrado tem uma dimensão positiva, ligado à criação, a uma relação harmoniosa entre o homem e as divindades, entre o homem, a terra e os seres; e ii) um espaço repressivo: um espaço marcadamente urbano, em que o sagrado surge, ora sob a forma do tremendum, da transgressão e da contra-criação, ora como forma de criação-resistência. Neste artigo, começaremos por comentar como se processa essa oposição espacial para, depois, nos debruçarmos sobre aquele a que chamamos espaço repressivo. Para isso recorreremos a uma leitura crítica em torno da obra do cineasta, dando principal relevância a Recordações da Casa Amarela (1989). A partir desse filme, explicaremos como o realizador desconstrói a lógica repressiva dos espaços de clausura, encontrando, aí, a liberdade, por via da criação demiúrgico-cinematográfica. Espaço mítico Para Monteiro, sagrado e cinema são sinónimos. Como refere o realizador: "[o] sagrado é o cinema [...], é o desejo de criar um mundo" (2005h: 359), ou por outras palavras: "[o] sagrado é o que toca a criação. Quer seja um filme, quer seja um filho" ANO 8. N. 2 -REBECA
doi:10.22475/rebeca.v8n2.597 fatcat:74ayfg2juncn5f32j2lf426aja