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Chove no Recife

Maria Amelia Vilanova Neta
2020 Revista Geografia Literatura e Arte  
Chove no Recife. Um manto de água cobre toda a cidade, e confere à paisagem o tom acinzentado dos temporais. Do alto de um prédio na rua da União, observo atentamente tudo o que se passa lá fora. O mar, que em dias de sol apresenta os tons de verde esmeralda, em dias como esse some, completamente imerso nas colunas d'água que sucessivamente atingem a cidadeprimeiro uma, depois outra, logo após outra de novo. Somente nos intervalos das chuvas, quando o céu para pra descansar de tanto desabar, é
more » ... e tanto desabar, é que se enxerga, bem longe, seu verde tímido e opaco. Mas logo outra coluna líquida inicia seu deslocar em direção aos prédios, e todos, da zona sul à zona norte, são igualmente lavados pelos pingos d'água que bailam no ar ao sabor do vento. E vem do vento e da chuva a música do temporal. Enquanto os pingos d'água dão a marcação constante, os ventos uivantes lhe conferem os 'solos'. Da chuva a espessura, a profundidade do som, e do vento a melodia triste e fria. Mas o vento é também expressão da ansiedade da natureza. Enquanto nas águas que caem tudo é constânciachover, chover, chover -o vento é pressa e liberdade. Rodopia, passa assobiando entre as frestas das janelas, move a coluna d'água, precipita ao chão os prematuros jambos d'uma árvore da rua da Aurora. Canta, corre, canta...Parece, apaixonado, querer avisar a tudo e a todos da chegada da chuva, sua amada. Parece querer ensurdecer-nos para os sons da cidade. Chove no Recife. Observo o balé do vento e da chuva, casal que se completa na pressa e na calma, na ânsia e na constância. E eu pacientemente olho, querendo enxergar alémque a chuva fecunda o solo, e minha alma também. Chove no Recife, chove no Recife...
doi:10.11606/issn.2594-9632.geoliterart.2020.176652 fatcat:6jecvymt4nhjvbl6drrnd4ws5y